“Lemegeton” foi o nome dado, provavelmente por volta dos anos 1650, ao conjunto de grimórios Salomônicos que compreende conhecimentos acerca das práticas mágicas utilizando os mais variados elementos, como anjos, demônios e forças planetárias.

Estes livros, ou seu conjunto, são citados em várias obras durante a história do ocultismo, e datam de épocas muito remotas, tendo sido recuperados totalmente ou em parte a partir de diversos manuscritos. As versões mais atuais foram recuperadas pela Aurora Dourada e seus membros, que também realizaram aprimoramentos dos métodos e experimentos quanto a seu conteúdo.

A Chave menor de Salomão

Os livros de Magia Salomônica, ou “chaves de Salomão”, que compõem o Lemegeton, se baseiam em métodos de magia atribuídos ao Rei Salomão, por serem supostamente dominados pelo Sábio Rei durante seu domínio sobre Israel, ou mesmo adaptados das práticas do Rei. Porém, sabe-se que alguns destes não foram originalmente escritos pelo Rei Salomão, como é o caso do Ars Paulina, recebido pelo apóstolo Paulo por meio de visões.

As versões às quais temos acesso hoje destes livros foram compiladas, adaptadas e aprimoradas por vários magistas ao longo dos séculos, como os estudiosos Dr. Rudd e Colin de Plancy, e os membros da Golden Dawn, como Aleister Crowley e Arthur Edward Waite. Muitos tratam-se ainda dos grimórios individuais de alguns magistas, portanto contendo impressões particulares dos mesmos obtidas nos rituais, assim como variações nos números e nomes das entidades descritas, bem como suas aparências.

Embora “Clavícula” signifique apenas “chave pequena”, ou “chave menor”, os nomes dos livros que falam sobre uma ou mais destas partes são os mais variados possíveis. Por vezes, chama-se “Clavícula” ou “Chave maior” o compilado de métodos para obter objetivos mundanos, assim como a descrição dos materiais, porém sem envolver a evocação de Daemons. Em outros casos, os nomes “Clavícula” ou “Chave menor” são utilizados para se referir à Ars Goetia, contendo a descrição dos 72 daemons. Porém, na maioria dos casos, “Clavícula” é o nome utilizado para se referir a um dos cinco livros do Lemegeton, o Ars Notoria.

Os cinco livros do Lemegeton

Os cinco livros geralmente compreendidos no Lemegeton são o Ars Theurgia, o Ars Goetia (por vezes unificados como Theurgia-Goetia), o Ars Paulina, o Ars Almadel e o Ars Notoria. Tratam, respectivamente, e de forma extremamente simplificada, de: líderes espirituais, demônios, planetas, anjos, e selos mágicos.

Ars Theurgia

A Arte da Theurgia faz parte do Lemegeton, e trata de explicações detalhadas sobre os espíritos de naturezas variadas que aparecem vindo de cada uma das direções cardeais. Este livro foi primeiramente compilado por Trithemius em sua Steganographia, em 1500.

Na hierarquia apresentada no Ars Theurgia, os espíritos Caspiel, Carnesial, Amenadiel e Demoriel são citados como imperadores das direções Sul, Leste, Oeste e Norte, respectivamente. São apresentados também outros 12 espíritos correspondentes aos flancos de cada uma das direções (8), e às direções intermediárias (4).

Ars Theurgia

Chefes, imperadores, reis e duques infernais

Estes 16 espíritos, que também possuem hierarquia de Duques, podem ser evocados à frente do magista, ou então invocados para dentro de um cristal com cerca de 10 centímetros de diâmetro, e então os pedidos podem ser realizados.

A prática de sigilização utilizada na Magia do Caos tem entre suas bases a Ars Theurgia, sendo teorizada inicialmente por Austin Osman Spare, que codificava seus pedidos aos espíritos teúrgicos por meio de conjuntos de símbolos e palavras criptografadas. Porém, no caso da sigilização, Spare não possuía o hábito de discriminar a qual espírito estava sendo feito o pedido, assim como sua direção ou horário.

Ars Goetia

A Arte da Goécia, ou apenas “Goetia”, é um livro derivado da Theurgia Goetia, que foi explorado e aprimorado por diversos magistas ao longo dos séculos, e também faz parte do Lemegeton. É muitas vezes chamada “A Chave Menor de Salomão”.

Neste livro, são descritos 72 espíritos infernais (na maioria das versões, uma vez que os espíritos e sua quantidade podem variar), e em algumas versões também são descritos 72 anjos que os contrabalanceiam e regulam.

Ars Goetia

Os 72 demônios

Estes 72 espíritos seriam os responsáveis por realizar tarefas específicas para o magista, desde que comandados por seus respectivos reis, dependendo da direção cardeal correspondente. Geralmente se apresentam na forma de animais ou combinações dos mesmos, dependendo da simbologia aplicável às suas funções. Seus nomes são:

• Baal • Agares • Vassago • Samigina • Marbas • Valefor • Amon • Barbatos • Paimon • Buer • Gusion • Sitri • Beleth • Leraie • Aligos • Zepar • Botis • Bathin • Saleos • Purson • Marax • Ipos • Aim • Neberius • Glasya-Labolas • Bune • Ronove • Berith • Astaroth • Forneus • Foras • Asmoday • Gaap • Furfur • Marchosias • Stolas • Phenex • Halphas • Malphas • Raum • Focalor • Vepar • Sabnock • Shax • Vine • Bifrons • Vual • Hagenti • Crocell • Furcas • Balam • Alloces • Camio • Murmur • Orobas • Gremory • Ose • Amy • Orias • Vapula • Zagan • Valac • Andras • Haures • Andrealphus • Cimeies • Amdusias • Belial • Decarabia • Seere • Dantalion • Andromalius •

Em outra visão, estes espíritos seriam deuses de outras culturas, sendo que sua natureza e os rituais de evocação foram comunicados a Salomão por suas várias esposas, ou mesmo pelos daemons que o próprio Rei aprisionou com auxílio do anjo Miguel. Referências a isto são encontradas na Bíblia, no Alcorão, e no Testamento de Salomão. Também são encontradas referências na literatura sobre a descoberta das urnas onde Salomão teria aprisionado os espíritos, e mesmo à quebra de algumas delas durante as escavações, quando os espíritos teriam retomado sua liberdade.

Ars Paulina

A Arte Paulina deriva seu nome da hipótese de ter sido ensinada primeiramente ao apóstolo Paulo, que subiu aos céus, segundo a Bíblia, e aprendeu os segredos da comunicação com os espíritos, incluindo visões apocalípticas.

Ars Paulina

Invocação na Goetia

Neste livro, são descritos 24 anjos correspondentes às horas do dia e da noite, assim como instruções sobre a comunicação com os mesmos. A comunicação é feita primordialmente pela técnica de Skrying, utilizando a Tabula Sancta popularizada e aprimorada por John Dee em seus trabalhos sobre magia enoquiana.

Os anjos também são relacionados, no Ars Paulina, aos 360 graus da roda zodiacal, com seus 12 signos e 7 planetas principais. Os selos planetários apresentados, assim como o selo principal que engloba todos eles, são geralmente utilizados na magia planetária, buscando-se atrair as qualidades de cada um dos planetas ou signos, por intermédio dos anjos.

Ars Almadel

Baseando-se na magia Árabe com círculos, também chamados al-Mandal (mandalas), a Arte Almadel consiste na conjuração de anjos utilizando uma tábua de cera, e recorrendo aos anjos das quatro altitudes, Ayres ou Aethyres.

Ars Almadel

Invocação de anjos

Os 30 anjos superiores podem ser evocados usando o Almadel, e possuem atribuições específicas baseadas no Coro ao qual fazem parte. Suas aparências são de crianças com coroas de flores, anjos carregando estandartes, meninas com folhas nos cabelos e meninos carregando pássaros.

Os anjos do primeiro coro são associados à fertilidade vegetal, animal ou humana, e os do segundo a bens e riquezas, mas as atribuições dos anjos do terceiro e quarto coros não são descritas nas poucas versões disponíveis do Ars Almadel, assim como nos manuscritos, que se limitam a descrever diferenças e semelhanças que concernem à aparência e aos aromas associados aos coros.

Ars Notoria

A Arte Notória refere-se à prática de magia utilizando notas (símbolos, selos ou sigilos), para obter os mais variados objetivos. É muitas vezes chamada “A Clavícula de Salomão”, e pode compreender também uma parte chamada a Arte Nova ou Ars Nova, que se baseia na mesma técnica de elaboração de Notas para variadas finalidades.

Ars Notoria

A clavícula de Salomão

Dentre os principais objetivos da Ars Notoria, podem ser citados a ativação da memória, a previsão de eventos futuros e recordação de acontecimentos passados, a atração de parceiros amorosos e a facilitação no aprendizado de ciências.

Em vários manuscritos, a Ars Notoria é citada como um dos motivos pelos quais o Rei Salomão possuía vasto conhecimento em várias artes e ciências. Tais selos teriam sido passados a ele pelo anjo Miguel, e poderiam ensinar qualquer assunto a qualquer pessoa em apenas alguns segundos, com o auxílio de forças espirituais superiores.