Simbolismos de Mephisto

A figura de Mefistófeles, embora amplamente popularizada pela literatura renascentista e moderna — especialmente por obras como Fausto, de Goethe —, também possui presença marcante em grimórios antigos e textos de magia cerimonial europeia. Nos grimórios, Mefistófeles aparece não apenas como personagem literário, mas como entidade demoníaca com papel específico no sistema de hierarquias infernais.

Imagem: Mefistófeles voando por Delacroix, 1828.

Origem e Nome

O nome “Mefistófeles” parece derivar do grego, provavelmente de me (não) + phos (luz) + philos (amigo), sugerindo o significado de “inimigo da luz” ou “aquele que não ama a luz”, o que é coerente com seu papel nos textos ocultistas como espírito da escuridão e da ilusão.

Percebe-se que o nome, por esta interpretação, evoca algo comum dos demônios: se manter oculto. Neste sentido é similar semanticamente a Lucifuge Rofocale, por fugir da luz ao invés de ir em direção a ela. Atuando nas sombras, Mefistófeles manipula e ajuda aos tutorados (supostamente pedindo a alma em troca).

Imagem: Mefistófeles por Eduard von Grutzner, 1895.

Grimórios e Textos Mágicos

Mefistófeles aparece com frequência em grimórios atribuídos à tradição faustiana e a sistemas mágicos associados à necromancia e invocação de espíritos. Um exemplo é o grimório “Faustbuch” (1587), também conhecido como Historia von D. Johann Fausten, onde Mefistófeles é o demônio que responde ao chamado do Doutor Fausto. Ainda que o Faustbuch seja essencialmente uma obra literária e não um grimório em sentido estrito, ele serviu de base para muitos textos mágicos posteriores que incorporaram Mefistófeles em seus rituais.

No grimório de demonologia alemão Magia Natural e Não-Natural (Magia Naturalis et Innaturalis) de 1849, atribuído ao Dr. Fausto, Mephistophiels aparece como um animal quadrúpede similar a um lobisomem, e depois se torna um senhor idoso. Ele confere o poder do teletransporte, ensina sobre necromancia e magia no geral.

Imagem: selo de Mefistófeles no Manual de Magia Natural e Não-Natural, 1849.

Segundo o autor do grimório,

“Este príncipe infernal, o grão-duque Mephistopheles, apareceu-me pela primeira vez em uma encruzilhada, e de maneira muito terrível, como um urso. Mas logo depois ficou sentado como um leão. No entanto, após muita insistência com minha conjuração, consegui que ele prometesse vir até o meu escritório, e então ele veio como um velho homem grisalho.

Esse espírito imediatamente fez um pacto comigo por 24 anos e prometeu levar-me a qualquer lugar tão rapidamente quanto eu pensasse. Eu também deveria aprender com ele todas as artes secretas da necromancia, e ele queria me ensinar devidamente a magia, dizendo ainda:

Em mim residem todas as altas artes da natureza escondidas, e a hora de Júpiter é quando eu governo. Por isso, sou muito inclinado a fazer o bem ao ser humano. Eu o advirto contra fazer pactos — mas se não quiser ser advertido, então, passado o tempo do pacto, não haverá misericórdia da minha parte, nem do meu chefe, ou seja, Lúcifer.

Minha estrela se chama Cerumepihtin*, a qual desperta veneno no coração dos homens. Quando apareço como um velho homem grisalho, sou o mais amistoso. Meu selo foi tirado de Júpiter e do astro Cerumepihtin*. E quando alguém quiser me invocar, deve colocar o meu sinal sobre o peito e mantê-lo virado para o meu rosto. Se o meu selo estiver visível, minha aparição será melhor e menos terrível, e desprezada por muitos espíritos.”

*Estrela ainda não reconhecida, é mencionada apenas neste grimório.

Imagem: Mefistófeles antes da transformação no grimório Magia Natural e Não-Natural (1849).
Imagem: Mefistófeles depois da transformação no grimório Magia Natural e Não-Natural (1849).

Mefistófeles no Fausto de Goethe

Na peça de Johann Wolfgang von Goethe, Fausto, Mefistófeles é o demônio intermediário com o inferno, responsável por executar o pacto pelo qual Fausto troca sua alma por conhecimento e prazer.
Mefistófeles é descrito na obra original e nas obras derivadas como um homem bem vestido, com modos refinados e linguagem culta. Sua aparência física não é grotesca, mas sedutora, justamente para facilitar a tentação. Ele se destaca pelo sarcasmo, pelas críticas mordazes à religião, à ciência e à humanidade. Essa ironia constante reforça sua imagem de um espírito caótico e subversivo.

Embora assuma a forma de um cavalheiro, Mefistófeles é um ser metamórfico — aparece como cão preto no início da peça (emulando o demônio no folclore germânico) e adota várias formas conforme os desejos ou ilusões de Fausto. Usa uma capa longa, preta ou vermelha. Veste um chapéu de abas largas com um ou dois chifres estilizados. Usa uma barba pontuda, e às vezes um bastão ou bengala com cabeça de dragão.

Na obra de Goethe, seu impacto é mais psicológico e discursivo do que de fato mágico ou sobrenatural. Sua aparência é evocada principalmente por suas ações, falas e disfarces sociais, o que intensifica sua natureza ilusória. Traz conhecimento e informação para que Fausto corra atrás de seus objetivos, mas não traz riqueza e fama gratuitas.

Simbolismo

Esotericamente, Mefistófeles é considerado um espírito do conhecimento, do engano intelectual ou do ceticismo. Diferentemente de demônios voltados à destruição ou à luxúria, ele aparece como arquétipo do tentador sutil — oferecendo sabedoria proibida e poder, mas sempre com a exigência de um preço espiritual.

Por isto mesmo, simboliza os pactos e contratos, sendo usado pela igreja para advertir sobre os riscos de se fazer acordos com demônios. Ironicamente, porém, mostra que a própria Igreja fez e continua fazendo acordos escusos com o poder dominante de cada local, oferecendo controle social em troca de poder e riquezas.

Mefistófeles representa o desejo humano por poder, saber e transcendência por vias não divinas. Ele não obriga Fausto a pecar; apenas oferece o que Fausto já quer. Ele não oferece isso de forma pronta, mas sim dá as ferramentas para Fausto chegar onde deseja. E se seu tutorado cai em desgraça, é apenas pela própria húbris, pelo uso desmedido do conhecimento obtido, sem responsabilidade ou comedimento.

Imagens: a capa mágica de Mefistófeles no grimório de magia faustiana de 1527; Mephisto dando a capa mágica para seu mentorado na série Iron Heart, 2025.

Referências Bibliográficas

  • DAVIES, Owen. Grimoires: A History of Magic Books. Oxford University Press, 2010.
  • DE PLANCY, Collin. Dictionnaire Infernal. 1818.
  • FAUST. Magia Naturalis et Innaturalis, 1849.
  • FAUST. Praxis Magia Faustiana, 1527.
  • GOETHE, Johann Wolfgang von. Faust – Eine Tragodie, 1808.
  • KIECKHEFER, Richard. Forbidden Rites: A Necromancer’s Manual of the Fifteenth Century. Pennsylvania State University Press, 1998.