São Jorge e Cimeies: Simbolismos Convergentes

Um cavaleiro que foi até a Lua derrotar um Dragão usando uma Lança. Só essa parte já parece algo que poderíamos ler em um grimório de Goécia, mas na verdade é a história mítica de um dos mais influentes santos da Igreja Católica, que foi adorado amplamente na Armênia, sincretizado com Ogum no Brasil (onde é festejado em 23 de abril), e se tornou um símbolo de proteção e luta contra opressores.

Imagem: Peter Paul Rubens – São Jorge e o Dragão (1605).

A Suposta História Real

Jorge ou Georgios era soldado do exército romano, supostamente de alta patente, que nasceu em 275–280 d.C., na Capadócia (região na atual Turquia), e morreu por volta de 303 d.C., na Palestina. Georgios significa “aquele que trabalha a terra”, o que fortalece seu sincretismo com Ogum, dado que as ferramentas de ferro e aço podem ser usadas tanto na guerra quanto na agricultura.

Durante a perseguição aos cristãos ordenada por Diocleciano, Jorge se recusa a renunciar sua fé cristã. Por sua firmeza, é preso, torturado brutalmente (com instrumentos como rodas com lâminas, caldeirões de óleo e fogo), mas sobrevive milagrosamente a todas as torturas. Por fim, é decapitado em frente ao público, tornando-se um dos mártires mais venerados da Igreja.

A História Mítica

Em uma cidade chamada Silene, na Líbia, um dragão aterrorizava o povo e vivia perto de um lago. Para acalmá-lo, os moradores ofereciam animais, depois crianças, até que a princesa local foi sorteada como sacrifício. Jorge chega montado em seu cavalo branco, enfrentando a fera com lança ou espada, invocando o nome de Deus, e vence o dragão. A população se converte ao cristianismo após testemunhar o milagre.

Essa lenda, altamente simbólica, foi difundida na Idade Média, principalmente no livro “Legenda Aurea” (séc. XIII), e ajudou a fixar a imagem de São Jorge como herói santo e cavaleiro da fé. A cidade chamada Silene se converte posteriormente na própria Lua (cuja deusa-mãe grega era Selene), e o mito ganha caráter mais alegórico, sendo o dragão associado a qualquer inimigo, instituição ou governante opressor.

São Jorge na Armênia

A Capadócia (região da Anatólia central, hoje na Turquia) faz fronteira com o planalto armênio, e ao longo de diversos períodos na História, a Armênia foi anexada ou separada da província da Capadócia. Em 62 a Armênia Menor passou a compor o Reino da Capadócia, que havia sido dominado pelos romanos no ano 17. Em 330 ocorreu Separação da Armênia Prima e Armênia Secunda em relação à Capadócia, mas o intercâmbio cultural, artístico e religioso havia já ocorrido de forma indelével até então.

Na Armênia, São Jorge é venerado de forma especial, principalmente como Santo Guerreiro e Protetor, sendo conhecido como Սուրբ Գևորգ (Surb Gevorg) — literalmente, “São Gevorg” em armênio. Sua figura tem um lugar importante tanto na Igreja Apostólica Armênia quanto no imaginário popular, com um culto que mescla cristianismo oriental, tradições pré-cristãs e heroísmo nacional.

Há diversas igrejas e mosteiros dedicados a Surb Gevorg na Armênia (onde estariam seus restos mortais), especialmente em áreas rurais. Um dos santuários mais famosos é a Igreja de Surb Gevorg em Mughni, do século XIII, perto de Ashtarak. Há também diversos Mosteiros e khachkars (cruzes de pedra) dedicados a ele em várias regiões montanhosas.

Imagem: São Jorge por pintor russo (século XIV, Novgorod – Moscou).

Cimeies e os Cimérios

O daemon Cimeies, Kimaris, Tuveries ou Cimeries é um poderoso marquês que comanda 20 legiões e aparece como um valoroso soldado montado em um cavalo negro. Reina sobre os espíritos na região da África, e pode ensinar gramática, lógica, retórica, e descobrir tesouros e coisas escondidas ou perdidas. Pode fazer os homens se parecerem com soldados, à sua própria aparência.

Por sua vez, os Cimérios (ou Cimmerianos, do grego Κιμμέριοι – Kimmerioi), que dão nome a este daemon, foram um povo nômade ou semi-nômade da Antiguidade, mencionado em diversas fontes gregas, assírias e babilônicas. Sua origem exata é envolta em mistério, mas eles são geralmente associados às regiões ao norte do Mar Negro, particularmente à Crimeia e ao Cáucaso, e surgem na história como guerreiros ferozes, cavaleiros e invasores de civilizações estabelecidas.

Eles habitavam as regiões ao norte do Cáucaso e do mar de Azov desde 1.300 AEC até serem expulsos pelos citas por volta do século VIII AEC, iniciando uma série de incursões rumo ao sul. Após saquearem Urartu e serem repelidos pelos assírios, migraram para a Anatólia, onde conquistaram a Frígia (696–695 AEC) e alcançaram seu auge com a tomada de Sárdis, capital da Lídia, em 652 AEC. Após esse ápice, sofreram um rápido declínio, sendo finalmente derrotados entre 637 e 626 AEC pelo rei Alíates da Lídia, mas não sem antes terem se estabelecido em pequenos aldeamentos na Capadócia, deixando vestígios culturais e étnicos na região.

Simbolismos de São Jorge e Cimeies

Tanto Cimeies quanto São Jorge representam o arquétipo do guerreiro espiritual montado em um valoroso cavalo. Ambos são aquele que cavalga entre mundos, defende territórios sagrados, conhece e domina o discurso (palavra, fé, verbo) e destrói as forças do caos ou do engano (dragão ou serpente). Enquanto Jorge é um valoroso soldado, Cimeies vai além, e também transforma as pessoas em soldados valorosos.

  • Dragão: Forças do mal, opressão, doenças
  • Cavalo branco de Jorge: Pureza, poder solar, salvação, conquista
  • Cavalo negro de Cimeies: Ocultação, atuação estratégia, resistência
  • Lança ou espada: Palavra divina, justiça, coragem
  • Cavaleiro ou soldado: Força, resiliência, capacidade de lutar, liderar e ensinar
Imagem: Estela mostrando Cavaleiro Trácio no Museu de Madara (Bulgária).

A Oração de São Jorge

A oração de São Jorge nos lembra dos poderes de Cimeies, e não só oferece proteção mas também transforma as pessoas em verdadeiros guerreiros contra tudo aquilo que possa estar lhes oprimindo. Conjura uma espécie de “escudo mágico” e torna o corpo da pessoa imune a quaisquer ataques (sendo inclusive usada em feitiços de “corpo-fechado”).

“Eu andarei vestido e armado com as armas de São Jorge, para que meus inimigos, tendo pés não me alcancem, tendo mãos não me peguem, tendo olhos não me vejam, e nem em pensamentos eles possam me fazer mal.

Armas de fogo o meu corpo não alcançam, facas e lanças se quebram sem o meu corpo tocar, cordas e correntes se arrebentam sem o meu corpo amarrar.

Me proteja e me defenda com o poder da sua santa e divina graça, protegendo-me em todas as minhas dores e aflições, seja meu defensor contra as maldades e perseguições dos meus inimigos.

Glorioso São Jorge, estenda-me o seu escudo e as suas poderosas armas, defendendo-me com a sua força e com a sua grandeza, e que debaixo das patas de seu fiel ginete, meus inimigos fiquem humildes e submissos a vós. Assim seja”.