A humanidade migra, e com ela leva seus anjos, demônios, deuses, seres mágicos, histórias e contos, que logo ganham novos contornos e passam a refletir novos locais, novas culturas e novos tempos. Os seres se misturam, se associam, se ocultam em momentos de perseguição, se revelam em momentos de libertação, e se transformam em miríades de novas roupagens, assim sobrevivendo.
Demônios de quem?
A colonização do Brasil começou oficialmente em 1500, com a invasão dos portugueses, que estabeleceram o domínio sobre o território, cometeram o genocídio de diversas etnias, e iniciaram a exploração das nossas riquezas naturais, especialmente o pau-brasil e, posteriormente, o açúcar. Durante os séculos seguintes, o país foi estruturado sob um modelo colonial baseado no trabalho escravizado, primeiro com povos indígenas e depois com milhões de africanos trazidos à força.
Além dos portugueses e africanos, o Brasil recebeu diversos outros povos ao longo dos séculos, especialmente a partir do século XIX. Vieram imigrantes italianos, alemães, espanhois, japoneses, sírio-libaneses, poloneses, ucranianos e muitos outros, atraídos por promessas de trabalho e terra.
Esses grupos se estabeleceram principalmente nas regiões Sul e Sudeste, contribuindo para a diversidade cultural, culinária, religiosa e econômica do país. Mais para o Norte, houve também a chegada de holandeses, ingleses, franceses, que invadiram outros países de forma similar ao que aconteceu aqui, e vieram também para os Estados do Norte e do Nordeste.
Sendo assim, é de se esperar que os demônios e outros seres mágicos que faziam parte do imaginário simbólico do Brasil colonial e republicano fossem uma tapeçaria de crenças destes povos que compuseram o caldeirão mágico Tupiniquim.
Inquisição e Degredo
A Inquisição portuguesa, instituída em 1536, foi um instrumento tanto da Igreja quanto do Estado para controle religioso, político e social, voltado inicialmente à perseguição de judeus convertidos (cristãos-novos), protestantes e praticantes de feitiçaria ou curas consideradas heréticas. No entanto, diferentemente da metrópole, o Brasil nunca teve um tribunal inquisitorial permanente. O controle sobre a colônia era feito por meio de “visitações do Santo Ofício”, expedições esporádicas que coletavam denúncias e julgavam suspeitos.
A vigilância inquisitorial era limitada, pois a dinâmica colonial, marcada pela diversidade étnica e pelo sincretismo cultural entre portugueses, indígenas e africanos, dificultava a aplicação rígida das normas religiosas. A heterogeneidade cultural e a necessidade de estabilidade social e econômica levaram o Estado português a adotar uma postura mais flexível diante das práticas religiosas e mágicas na colônia.
Uma das principais punições da Inquisição era o degredo — o exílio forçado de condenados para regiões distantes, especialmente o Brasil. Essa pena era frequentemente aplicada a pessoas acusadas de feitiçaria, curandeirismo ou comportamentos sexuais considerados desviantes. Muitos desses degredados, sobretudo mulheres acusadas de práticas mágicas, continuaram a exercer seus saberes na colônia e foram fundamentais para a disseminação de tradições populares e sincréticas no território brasileiro.
Como observa Vieira da Silva, mesmo aquelas enviadas como punição acabavam transmitindo seus conhecimentos entre os colonos e os povos nativos, contribuindo para a construção de uma religiosidade popular original, onde práticas consideradas demoníacas pela Igreja se mesclavam com devoções católicas e ritos africanos e indígenas.
Grimórios Ibéricos
Os grimórios — livros de magia — tiveram papel central na cultura popular ibérica e europeia entre os séculos XIII e XIX, com especial destaque para o Livro de São Cipriano, considerado o principal grimório presente na magia portuguesa tradicional. Embora sua forma atual remonte ao final do século XIX, seu conteúdo deriva de uma longa tradição oral e popular, reunindo orações, esconjuros, rituais de cura, cartomancia, feitiçaria e práticas de tesourologia.
O Livro de São Cipriano português diferencia-se dos modelos europeus clássicos por seu forte enraizamento no catolicismo popular e nos saberes tradicionais — uma “religiosidade mágica” ainda viva no Brasil, onde novas edições frequentemente incorporam elementos de cultos afro-brasileiros como a Umbanda e a Quimbanda, mantendo o livro como uma obra “viva”, em constante reelaboração.
Em contraste, a versão espanhola do Libro de San Cipriano – Tesoro del Hechicero alinha-se mais com a tradição dos grimórios cerimoniais europeus, como o Le Grand Grimoire (de 1421, 1521 ou 1522), o Grimorium Verum (atribuído a 1517), o Arbatel de Magia (de 1575) a Chave de Salomão (de 1600 no caso da Chave Maior, e de 1641 no caso da Chave Menor) e a Franga Preta (século XVIII).
A versão espanhola apresenta instruções mais ritualizadas para a evocação de espíritos celestiais e infernais, uso de selos mágicos, construção de círculos de proteção e confecção de instrumentos mágicos, seguindo um modelo mais sistemático e hierarquizado do ocultismo europeu.
Há também registros de ramificações desses grimórios em outras partes da Europa, como a Itália e a Escandinávia, sendo que nesta última os Cyprianus ou Svarte Boken (Livros Negros) eram tradicionalmente copiados à mão e ampliados com os saberes do copista, o que manteve vivas centenas de versões orais e locais do mesmo legado mágico.

Grimórios no Brasil
Não existe um registro oficial de quando, quantos, ou quais destes grimórios vieram para o Brasil, mas sabe-se que os Livros de São Cipriano – e consequentemente do Grand Grimoire, Arbatel, Chaves de Salomão, que serviram de base para o Cipriano -, em diversos formatos, estavam presentes aqui desde pelo menos o final do século XIX, quando o Cipriano ganhou edições oficiais por grandes editoras.
Segundo Barreto, a primeira menção ao Thesouro do Feiticeiro em anúncios de jornais brasileiros data de 1876, na Gazeta de Notícias, do Rio de Janeiro. Nesse mesmo ano, surgiu também o primeiro anúncio da Livraria Cruz Coutinho, que era uma filial da casa editorial portuguesa sediada no Porto. Em 1878, novas propagandas reapareceram, acompanhadas por anúncios das livrarias José Alves, também localizada no Rio, e da Acadêmica, em São Paulo.
Durante a década de 1880, novas livrarias começaram a vender suas próprias edições do Livro de São Cipriano. Entre elas, a Livraria Quaresma se destacou por ser a principal responsável por ampliar a fama da obra nas primeiras quatro décadas do século XX. A mais antiga publicação da Quaresma identificada em jornais data de 1882, com o título O Grande Livro de São Cypriano ou o Thesouro do Feiticeiro.
Em 1904, João do Rio publica uma reportagem sobre os feiticeiros e alufás do Rio de Janeiro, afirmando que:
“a base, o fundo de toda a sua ciência é o Livro de São Cipriano. Os maiores alufás, os mais complicados pais-de-santo, têm escondida entre as tiras e a bicharada uma edição nada fantástica do S. Cipriano. Enquanto criaturas chorosas esperam os quebrantos e as misturadas fatais, os negros soletram o S. Cipriano, à luz dos candeeiros”…
João do Rio (1904) apud Barreto (2025)
Sendo ou não verdade que as informações mágicas vinham deste livro, fica explícito que ele já era conhecido, se tornava cada vez mais famoso, e acumulava um tom de conspiração e mistério ao seu redor. O clima de mistério era alimentado e explorado pelas editoras para vender cada vez mais exemplares, o que retroalimentou sua fama e alcance.
De acordo com um artigo de opinião intitulado “O Commercio de Livros”, publicado no jornal A Notícia em 1916, o Livro de São Cypriano figurou entre os títulos mais vendidos no mês de setembro daquele ano, alcançando a marca de 1.223 exemplares comercializados.
Demônios de Cipriano
Levando em conta que os principais Livros de São Cipriano brasileiros são uma mescla entre rituais de magia folclórica e conteúdo retirado de grimórios como o Grand Grimoire e o Grimorium Verum, chegamos à conclusão que os seguintes demônios são os mais prováveis de serem conhecidos desde o Brasil Antigo.
• Lúcifer, Belzebu e Satanás, que formam a trindade demoníaca infernal.
• Satanás, Caifás, Ferrabrás, citados na famosa oração da Cabra Preta.
• Lúcifer, Belzebu e Astaroth, que são as majestades do Grimorium Verum.
• Lucifuge Rofocale, tendo lugar de destaque no Grand Grimoire, com rituais completos para sua evocação.
• Satanachia, Agaliarept, Fleurety, Sargatanas e Nebiros, presentes no Grand Grimoire como tendo cargos importantes no inferno.
• Syrach, Clauneck, Musisin, Bechaud, Frimost, Klepoth, Khil, Mersilde, Clisthert, Sirchade, Segal, Hicpacth, Humots, Frucissiere, Guland, Surgat, Morail, Frutimiere, Huictiigaras, Serguthy, Heramael, Trimasael, Sustugriel, Elelogap, Hael, Sergulat, Proculo, Haristum, Brulefer, Pentagonia, Aglasis, Sidragosan, Minoson e Bucon, que fazem parte do Grimorium Verum.
• Pruflas (Furcas ou Purson), Amon, Barbatos, Buer, Gusion, Botis, Bathin, Purson, Eligos, Lorai (Leraie), Valefor, Faraii (Marax), Ipos, Naberius, Glasya-Labolas, Baal, Agares e Marbas, que foram os primeiros daemons do Ars Goetia a entrarem no Cipriano por meio do Grand Grimoire.
Referências
- BARRETO, Inês Teixeira. O livro de São Cipriano: a trajetória de um manual de magia no mercado editorial brasileiro. São Paulo, v. 25, n. 1, jan./abr. 2025. Cadernos de Pós-Graduação em Letras.
- LEITÃO, J. V. The folk and oral roots of the Portuguese «Livro de São Cipriano». International Journal of Heritage and Sustainable Development, Delft: TU Delft, v. 4, n. 1, p. 129-134, 2015.
- MARTINS, Ivan Barbosa. A magia nas reduções jesuíticas no brasil colonial. Revista Último Andar [14] – Junho de 2006.
- MÉRIDA DE JAYO, Graciela. As práticas mágicas na Península Ibérica nas crônicas e na literatura: um estudo introdutório. Revista de História, São Paulo: FFLCH-USP, n. 139, p. 9-20, 1998.
- SILVA, Camila Vieira da. Magia e feitiçaria na Colônia: a originalidade das práticas sincréticas. Revista Historiador, Porto Alegre: Faculdade Porto-Alegrense (FAPA), n. 4, ano 4, dez. 2011.
