Belial é uma entidade que atravessa milênios de mitologia, religião, ocultismo e cultura popular. Seu nome, que tem origem no hebraico Beli-yaal (בליעל), pode ser traduzido como “sem valor” ou “sem mestre”. Nas tradições judaico-cristãs, Belial personifica o mal e a perversão moral. Contudo, nas correntes de estudo ocultistas e demonológicos, ele assume papéis mais complexos e multifacetados.

No Ars Goetia, parte do grimório As Clavículas de Salomão, Belial é descrito como um rei poderoso do inferno, comandando 80 legiões de espíritos. Segundo essas tradições, ele concede posições e honrarias àqueles que o invocam, mas sempre exige sacrifícios ou tributos em troca.
Na tradição cabalística, Belial teria sido o líder de um universo anterior ao nosso que se autodestruiu devido à sua maldade inerente. Outros textos antigos, como os manuscritos salomônicos, mencionam que, após a quebra das urnas de Salomão, Belial se alojou em uma imagem adorada na Babilônia, possivelmente representada por um carneiro dourado, remetendo à história bíblica do bezerro de ouro.
Quem são os Filhos de Belial?
Os “Filhos de Belial” são mencionados diversas vezes na Bíblia Hebraica e em tradições ocultistas. No Texto Masorético, a expressão beni beliyaal (בְּנֵֽי־בְלִיַּעַל) aparece quinze vezes, referindo-se a pessoas cruéis, idólatras e moralmente corrompidas. Exemplos incluem os homens de Gibeá (Juízes 19:22) e os filhos de Eli (1 Samuel 2:12).
Na narrativa ocultista, especialmente segundo Edgar Cayce, os Filhos de Belial eram um grupo de magos sombrios na Atlântida, opostos aos Filhos da Lei Única. Eles teriam sido responsáveis por práticas de escravidão e pela criação de aberrações místicas, culminando na destruição do continente atlante.
Essa divisão simbólica entre os “Filhos da Luz” e os “Filhos das Sombras” foi resgatada em várias tradições esotéricas e, inclusive, politizada em tempos modernos.
Os atributos de um homem de Belial
Na literatura bíblica e ocultista, um “homem de Belial” é aquele que incorpora a vileza, a desonestidade e a rebeldia. Entre seus atributos, destacam-se:
- Perversidade moral e corrupção.
- Manipulação e astúcia.
- Desprezo pelas leis divinas e humanas.
- Hedonismo e materialismo extremo.
Esses atributos são utilizados em textos religiosos para advertir contra comportamentos considerados desvirtuados, mas em tradições ocultistas, tais características podem ser vistas como parte de uma busca pelo poder pessoal e pela quebra de paradigmas impostos.
Belial na Bíblia
Na Bíblia Hebraica, belial aparece como substantivo e adjetivo, significando vileza e inutilidade. Em Provérbios 6:12, lê-se: “Um homem vil (adam beli-yaal)…”. No Novo Testamento, 2 Coríntios 6:15 pergunta: “Que harmonia há entre Cristo e Belial?”, representando-o como o oposto da luz e da justiça.
Belial na Angelologia
Dentro da angelologia, Belial é visto como um anjo caído de alto escalão. Algumas tradições dizem que ele foi o primeiro dos anjos criados, antes de Lúcifer, tornando sua queda ainda mais significativa. Ele teria sido um dos mais orgulhosos e rebeldes, tornando-se rival direto dos arcanjos Miguel e Fanuel.
Belial na Demonologia
No estudo dos demônios, Belial é considerado um dos quatro príncipes do inferno, ao lado de Lúcifer, Leviatã e Satã. Sua influência é associada à corrupção política e moral. Muitos grimórios descrevem seus métodos de manipulação, sendo invocado para obter favores materiais e ascensão social.
Belial na Goetia
No Ars Goetia, Belial ocupa a posição de 68º espírito. É descrito como belo e com voz melodiosa, enganando com sua aparência. Ele fornece posições elevadas e reconciliações com autoridades, mas apenas se o conjurador fizer sacrifícios apropriados. Sua invocação é perigosa, pois pode levar o mago à ruína caso não seja tratado com respeito e precaução.
Belial na Cultura Popular
Literatura
- Paraíso Perdido (John Milton): Belial é retratado como eloquente e enganador, defendendo a covardia e a passividade.
- The Divine Invasion (Philip K. Dick): Aparece como adversário espiritual e cósmico.
- O Golem (Gustav Meyrink): A estética do Nosferatu foi inspirada na capa desse livro, associando Belial à criação de monstros sem alma.
Música
- Infant Annihilator: Faz referência a Belial em “An Exhalation of Disease”.
- Ghost: Na canção “Year Zero”, Belial é invocado ao lado de outros demônios.
Televisão e filmes
- Barney Miller: Referência cômica à possessão demoníaca envolvendo Belial.
- Juleønsket: Apresenta Belial como um anjo caído antagonista.
- Nosferatu (1922): Menciona que o vampiro é “filho de Belial”.
- O Exorcismo de Emily Rose: Belial possui a protagonista.

Jogos
- In Nomine: Belial é o Príncipe do Fogo no inferno.
- Devil May Cry 4: Aparece como “Berial”, um demônio de fogo.
Histórias em quadrinhos, animações e mangás
- Universo DC: Pai de Etrigan e aliado de Neron em Reign in Hell.
- Avengelyne: Um dos vilões centrais.
- Digimon Adventure 02: BelialVamdemon é o vilão final.
- Urusei Yatsura: Belial aparece como entidade demoníaca.
- Angel Sanctuary: Um dos Sete Satans.
Conclusão
Belial é uma figura complexa e multifacetada que transcende simples classificações de bem e mal. Seja como um símbolo de rebeldia, um aviso contra a corrupção ou um arquétipo ocultista de poder e manipulação, sua presença permanece viva em diversas culturas e tradições até os dias atuais.
Ao explorarmos sua história e representações, mergulhamos em um universo onde moralidade, espiritualidade e poder se entrelaçam em camadas profundas de significados.
