“O meu nome é legião, porque somos muitos” (Marcos 5:9-13). Esta frase é repetida em vários filmes de terror, e reflete a capacidade dos demônios de funcionarem como uma mente coletiva, compartilhando energias e pensamentos, sabedoria, personalidade, e sua própria identidade.
Esse também acaba sendo o “mistério da fé”, já que Deus é pai, filho e espírito santo, mas cada um deles também tem suas peculiaridades, embora sejam um só. Todas as “Nossas Senhoras” são Maria, mas também têm suas peculiaridades. E todos os mais de 100 epítetos de Hécate são a mesma deusa, mas também são “deusas” levemente distintas.
E esse é um tema recorrente no ocultismo: quais demônios são o mesmo, e quais são diferentes? Quais deles são versões de outros? Quais são epítetos de uma mesma divindade esquecida? Quando eu faço uma evocação, quem vem é um demônio que faz parte das legiões, ou vem o próprio demônio principal? E se duas pessoas chamarem o mesmo daemon ao mesmo tempo, o que acontece?
A resposta é simples, e ao mesmo tempo muito complexa: depende do paradigma.
Paradigma consubstancial: mais de um podem ser um só
Assim como na Igreja, a capacidade de que vários seres possam ser um só, e ao mesmo tempo terem suas próprias identidades, é seguido por alguns praticantes de demonologia e demonolatria. Este fenômeno, chamado “consubstancialidade”, e considera que, como seres espirituais não seguem as regras humanas, sua “mente” pode estar difusa em mais de uma personificação, adotando então essas diferentes identidades como “máscaras” ou “roupagens” dependendo do momento e da ocasião.

Nesta visão, a trindade infernal, que poderia ser formada por Lúcifer, Belzebu e Satã, seria composta por facetas de um mesmo ser, o “diabo”, que ao mesmo tempo é os três, sendo que os três não o representam em sua totalidade. Extrapolando esta visão, o Diabo poderia estar dividido em outras 72 partes, que são os Daemons da Goécia, e em X partes, que são os X daemons de um grimório infernal qualquer. Todos são partes dele, com diferentes regências, aparências, nomes e personalidades, mas nenhum o representa completamente.
É esta mesma visão que rege os 72 anjos cabalísticos, sendo eles diferentes facetas ou aspectos de um Deus único, porém muito mais especializados, e com regências muito mais específicas, do que Deus. Tem quem diga que esse tipo de ritual direcionado é mais eficaz do que se uma pessoa fosse sempre chamar a Deus para ajudar em tudo, porque serão trabalhadas as energias específicas necessárias para o intento.
Paradigma energético: demônios não seguem o espaço-tempo
Levando em conta o paradigma energético, e os conceitos que estão inclusive sendo comprovados a cada dia pela física quântica, os daemons não estariam presos às leis do espaço-tempo que a matéria se vê obrigada a seguir. Dessa forma, poderiam viajar entre passado e futuro (o que inclusive fica explícito na descrição de vários deles), poderiam estar em mais de um lugar ao mesmo tempo, e mais de um poderia estar no mesmo local em um mesmo instante.
Levando em conta essa visão, os daemons são vários porque podem se multiplicar para estarem em diversos lugares, atendendo a quem os chama simultaneamente. Além disso, vários podem ser um só, porque poderiam se fundir para dar respostas mais precisas, unindo assim suas diferentes regências em prol do mesmo assunto.
Esta visão (que se assemelha bastante à consubstanciação) é partilhada na Goécia Luciferiana de Michael Ford, quando é chamado por exemplo Azal’ucel, uma amálgama de Azazel e Lúcifer. Ele é Azazel, é Lúcifer, mas ao mesmo tempo é muito mais que ambos, sendo também um ser próprio. É o mesmo que ambos, mas também é vários.
Paradigma histórico: demônios podem ter derivado de mais de um deus
Levando em conta o que realmente aconteceu na história da humanidade, com diversas comprovações históricas e arqueológicas (conforme explicamos em nosso texto “A Origem dos Demônios”), os daemons são divindades, conceitos, aspectos, e seres mágicos e espirituais que foram demonizados por diferentes grupos (principalmente aqueles de maior poder e alcance), por diferentes motivos.
Além disso, em várias épocas, divindades foram associadas entre si (sincretismo, como por exemplo em momentos de perseguição religiosa), igualadas (fusão ou amálgama, como ocorreu muitas vezes na passagem de um povo para o monoteísmo), ou chamadas juntas em um ritual para um mesmo fim (como ocorre no henoteísmo, ou nos Papiros Mágicos Gregos). E várias divindades foram “especializadas”, ganhando novos nomes, epítetos, aparências e poderes de acordo com quem estava chamando, quando estava chamando, onde estava chamando, e para quê estava chamando.

Em todos esses processos, acontece a formação de novos seres, que são versões parecidas ou diferentes, em maior ou menor grau, com os seres originais que os formaram. Mesmo mantendo o nome original, este “novo ser” é visualizado e descrito de forma mais ou menos distinta.
No caso dos daemons do Ars Goetia, este fenômeno se intensifica, pois os daemons são propositalmente construídos a partir de um conjunto de diversos seres ou conceitos que a Igreja decidiu demonizar, jogando “todos no mesmo saco” para demonizar todos os deuses que não fossem Javé.
Baal, por exemplo, significa “senhor”, e representa todos os Baais, que são geralmente deuses com o papel de serem “senhores de nações”. E sabe-se que alguns destes Baais eram: Baal-Hammon, Baal-Hadad, Baal Shamin, Baal Zebul ou Zabulon (posteriormente demonizado como Belzebu), Baal ou Bel Marduk, Baal-Peor (que pode ter dado origem a Balphagor e/ou Valefor), Baal-Berith (que deu origem a Berith), Baal-Zephon, Baal-Zabib (após ter derrotado a deusa do fogo Zabib e absorvido seus poderes), além de tantos outros.
Neste sentido, todos esses Baais seriam Baal, e Baal é todos eles. Mas, ao mesmo tempo, cada um deles não é igual aos outros, e cada versão demonizada não é o deus original, já é algo bem diferente. Em uma análise bem estrita, o Baal da Goécia tem muito de Baal-Hadad ou Adade, mas isso não exclui a influência dos outros Baais em sua criação, e nem a sua relação simbólica e até mesmo histórica com Belzebu e outros Baais. Fenícios e Cananeus provavelmente diriam que Baal é um só, esteja ele no Monte Peor, na Acádia ou no Reino Amonita, mesmo sendo chamado por diferentes nomes.
Paradigma materialista: isso não é possível
Levando em conta um paradigma puramente materialista, não é possível um daemon estar em mais de um lugar, e dois estarem no mesmo lugar. Nesta visão, “somos legião” é lido literalmente: são muitos demônios, que fazem parte de uma legião, que está submetida a um demônio maior, que é o seu líder.
Nesta visão, quem atende simultaneamente aos pedidos de diversas pessoas são demônios diferentes que fazem parte das legiões, e eles apenas atendem pelo nome de seu mestre porque têm uma “procuração” para atuarem em nome dele, e falarem em seu nome. Também nesta visão, cada daemon é um, sem sobreposições e compartilhamento de identidades.

Existem outros paradigmas?
Claro que sim! Cada pessoa pode encontrar outras formas de lidar com esta questão, ou entender de forma diferente cada um dos exemplos de paradigmas aqui citados.
Ao ser perguntada se dois daemons são o mesmo, cada pessoa vai te responder de uma forma diferente, o que reflete a grande variedade de práticas existentes na demonologia e na demonolatria, sem que haja um consenso sobre a maioria das questões que se apresentam.
E no final das contas, cada pessoa escolhe o que funciona melhor para si, dentro dos seus estudos e das suas práticas. Até porque magia não é ciência exata, é um campo em eterna descoberta e constante aprimoramento.
