Muita gente se pergunta o que é demonolatria, se tem mesmo que vender a alma, se tem que fazer pactos, se tem que usar várias ferramentas caríssimas e super específicas.
Mas na verdade a demonolatria é muito mais simples do que parece: é qualquer ato de cultuar (latria) seres que não são as divindades principais de um panteão (daemon ou demon). Tem quem chame inclusive de daemonolatria para não haver confusão e não ser queimade na fogueira.
Por isso, separamos algumas perguntas frequentes para ajudar a quem está trilhando nesse caminho. Vem com a gente!
1. Daemons são seres com energias densas e negativas?
Não necessariamente. De uma perspectiva animista e politeísta, daemons são seres que podem provocar tanto estados de espírito positivos quanto negativos. Muitos eram, no passado, deuses amados e importantes para civilizações do antigo Mediterrâneo.
Como pagão, entendo que insistir na retórica de daemons como seres negativos ou malignos é seguir reproduzindo o monoteísmo abraâmico.
Cultuar daemons enquanto deuses, é, antes de mais nada, restituir a dignidade divina que foi roubada por um processo histórico de aculturação e conversão, sobretudo ao Cristianismo.
1.1. Exemplos de daemons que são deuses demonizados
Baal foi cultuado como um deus dos céus e tempestades, considerado um dos mais importantes entre os cananeus, fenícios e cartagineses.
Vassago foi cultuada por povos arábicos como a deusa al-Uzza antes da islamização, sendo demonizada como Uzza-ghoul.
Paimon, uma possível demonização do deus Arsu (ou de seu irmão Azizos), da Palmira, ligado as caravanas de comércio, a aurora e ao planeta Vênus,
Zepar é relacionado a Zéfiro, deus do vento oeste, com energia fértil e primaveril.
Astaroth era Astarte, deusa que antes de demonizada foi sincretizada a deusas como Afrodite e Ishtar.
2. Demonolatria é um caminho apenas para pessoas com experiência?
Não. A formulação da demonolatria, enquanto caminho mágico, busca superar a diabolização de um grande rol de entidades pré-cristãs, reconhecendo que muitas destas possivelmente não terão a sua identidade divina pretérita resgatada. Desta forma, não existe uma exigência de conhecimentos prévios, mas o interesse em enfrentar preconceitos sobre daemons.
Diferentemente da goetia salomônica, que se funda no monoteísmo e opera o dualismo entre céus (de Yahweh) e inferno (fadado aos adversários), no qual os daemons são submetidos sob autoridade divina, a demonolatria entende daemons sob uma perspectiva politeísta e não dualista.
3. Todos os daemons são seres infernais?
Definitivamente não.
Existem daemons que são gênios locais, ligados a montanhas, bosques, lagos e outros lugares de poder.
Outros são deuses demonizados.
Alguns são espíritos de objetos, como Vine e Raum, estão ligados a armas de cerco usadas desde a antiguidade.
Vine também é ligado ao bastão usado pelo comandante de uma legião romana, usado para fins disciplinares.
Purson é um desdobramento totêmico de estandartes de batalha e de um título nobiliar medieval.
Outros daemons são possivelmente espíritos humanos, reais ou míticos, que foram diabolizados, como Furfur, Balaam e Andromalius.
4. Como montar um altar de demonolatria?
Quando olhamos referências do inicio dos anos 2000, como Connolly e Thorpe, os altares de demonolatria são apresentados com diferentes compleições, desde as mais simples, com representações dos quatro elementos e instrumentos mágicos básicos, até complexos, com estatuário, arranjos de cristais, flores e outros elementos.
Alguns elementos, como o espelho negro, o triângulo de invocação ou sigilo do daemon podem aparecer ou não nesses altares mais antigos.
Desde a década passada, os principais altares publicizados pelos praticantes de demonolatria passaram a incorporar de maneira mais frequente outros elementos de magia cerimonial, como tábuas enoquianas.
5. Posso trabalhar com anjos e demonolatria?
Dentro da perspectiva da demonolatria, o papel dos anjos, enquanto categoria de seres sobrenaturais é bastante distinto do observado em outras formas de evocação daemônica.
De um ponto de vista simplificado, não existe uma diferença efetiva entre deuses, anjos e daemons e nem a noção de uma dicotomia ou oposição entre estes, mas uma noção hierárquica de senhor e serviçal.
Pensando por uma ótica pré-cristã, anjos são seres sobrenaturais a serviço de uma outra divindade, dentro de uma visão hierarquizada do sobrenatural, como os ‘angelus’ helenísticos e os ‘sukkal’ mesopotâmicos, que atendem aos designios de outra divindade.
O que difere um anjo sob uma perspectiva politeísta e animista de um anjo sob a perspectiva monoteísta é que a relação de serviço entre anjo e divindade não determina a identidade do ser.
Para monoteístas, anjos não detêm livre-arbítrio e se submetem sem questionamento ao seu criador.
Para politeístas, os anjos tem seus próprios designios e podem inclusive agir contra a vontade do deus que lhe é superior (basta ver como Hermes e Hécate são retratados pelos helênicos).
Desta maneira existem daemons que atendem como mensageiros e condutores para outros daemons, como Gaap, e outros que contam com seu próprio cortejo angélico, como Belial e Paimon.
5.1. Nota sobre a composição dos anjos a partir do Shem HaMephorash
No século XV, um autor católico, Johann Reuchlin, utilizou da lista dos 72 nomes santos de Yahweh, compostos a partir do livro de Êxodo e apresentada pelos textos hebraicos medievais Sefer Raziel haMalakh (Livro de Raziel, o anjo) e Sefer haBahir (Livro da Ilimunação), com a adição dos sufixos ‘yah’ (contração do nome Yahweh) ou ‘el’ (contração de El, deus). Essa taxonomia acabou sendo absorvida por grimórios de demonologia, sobretudo pela Goetia do Dr. Rudd.
Para quem pretende trabalhar sob a ruptura com o monoteísmo parece contraditório de desligar do deus dos judeus e cristãos e insistir em trabalhar com os ‘espíritos mensageiros’ deste mesmo deus.
5.2. Outra nota sobre os anjos derivados dos Shem HaMephorash
Cabe outra nota, específica sobre os ‘anjos’ de ‘El’, que pode ser ajustada sob um olhar para a a tradição cananeia (como no Ciclo de Baal). Nesta os ‘elohim’ são um conjunto de setenta deuses, filhos do deus El Elyon e da deusa Athirat (Asherá), deuses responsáveis pela criação de todo o Universo.
O uso do número setenta parte de uma tradição recorrente do Oriente Médio como sinônimo pra indicar algo incontável ou dotado de infinitude e que dentro da tradição judaica medieval se expressa pelo conceito Yesh me-Ayin, como aquilo que se manifestou a partir do ‘nada’.
É importante ressaltar que os anjos listados por Reuchlin, independente do sufixo ‘el’ são estritamente desdobramentos do deus monoteísta.
6. Precisa de iniciação para trabalhar com demonolatria?
A iniciação é um tema presente dentro das fontes de demonolatria. Existe uma perspectiva iniciática para integrar grupos fechados, como na linhagem de Dukanté, legada através da Ordo Flemmeus Serpens (como S.Connolly, Ellen Purswell e J.Thorp). O Templo da Chama Ascendente (Asenath Mason, E.A. Koetting) também possui estrutura iniciática própria, bastante explícita nos textos de seus membros.
Apesar de existirem tradições e linhagens de demonolatria cuja participação é restrita e dependente de iniciação, a demonolatria enquanto prática devocional não exige iniciação, embora a busca por grupos e sociabilidade com outros demonólatras seja incentivada.
O que não é admissível é a falsa declaração de membresia a um grupo ao qual não foi iniciado ou a linhagem deste.
7. Como funciona um ritual de demonolatria?
Vários rituais de demonolatria são possíveis como a pratica devocional, que apesar de ser singela, é o ato no qual demonólatras dirigem sua atenção aos daemons que cultuam e reafirmam compromissos.
Outra prática, contaminada pelo imaginário negativo do senso comum é a invocação, ato no qual se busca a presença de um daemon para estabelecer contato e auxilio na realização de objetivos pessoais ou coletivos.
Todas as práticas prescindem de preparação prévia do praticante e do ambiente, envolvendo ou não um altar com recursos necessários.
7.1. Minimalismo ou maximalismo ritualistíco?
Alguns demonólatras optam por minimalismo, oferecendo incenso, velas e libações, outros organizam práticas elaboradas, que se assemelham as observadas na magia cerimonial, com a substituição do simbolismo monoteísta por equivalentes politeístas ou luciferianos.
Os recursos utilizados em uma ritualistica mágica pretendem empoderar e produzir confiança em um praticante, assegurando os melhores resultados possíveis.
Algumas pessoas se sentem desconfortáveis com um altar repleto de objetos mágicos buscam eliminar todos os elementos que podem ser distrativos. Outras entendem que recepcionar um daemon demanda do melhor que puder ser fornecido no momento, entendendo daemons como hóspedes bem-vindos e de elevada importância.
8. Se existem outras tradições pagãs politeístas como o reconstrucionismo, para que serve a demonolatria?
Alegação bastante corrente de oposição a demonolatria é que é possível cultuar deuses antigos ignorando o processo histórico e cultural que os demonizou e que é possível simplesmente retornar a forma original deles.
Para algumas entidades que compõe o panteão daemônico, essa alegação é possível, dada a abundância de fontes sobre uma deidade antes da sua diabolização. Outras infelizmente não tiveram a mesma sorte, e o pouco que sabemos é uma nota de rodapé vaga, uma intuição através da iconografia presente nos grimórios ou uma exploração através da etimologia.
A demonolatria entende, no entanto, que não deveríamos abandonar estas entidades pela ausência de fontes e que, em último caso, é necessário construir a relação com ela do zero, através de contatos que propiciam gnoses pessoais e coletivas sobre ela.
Outra coisa que consideramos é que uma imagem quebrada nunca será restaurada a sua forma original, e a demonização produziu fissuras na relação sobrenatural da humanidade com a divindade que só podem ser preenchidas através do reconhecimento que um dia nossos ancestrais viraram as costas para esses deuses, quebraram suas imagens e queimaram seus templos.
Se restringir a forma do passado é o mesmo que iniciar uma amizade e um namoro com uma pessoa ignorando seus traumas, tragédias e experiências, apegando-se ao retrato de recém-nascido da pessoa.
A relação da humanidade com seres sobrenaturais está sujeita ao processo histórico e cultural, e a maioria da sociedade monoteísta ainda vai ler os deuses antigos como falsos ícones ou seres maléficos, mesmo que você diga que eles na realidade sempre foram deuses antigos.
Nenhum cristão fundamentalista não vai te perguntar se o seu Baal é deus ou demônio antes de te agredir ou destruir seu espaço sagrado.
9. Preciso cultuar todos os 72 daemons para ser demonólatra?
Não, inclusive acreditamos que é humanamente impossível cultuar um grande número de daemons, espíritos ou divindades. O importante é reconhecer que todos os daemons, inclusive aqueles além dos 72 representados no Ars Goetia, possuem essência divina e sobrenatural.
Do ponto de vista pessoal é muito mais proveitoso cultivar uma relação estreita com um pequeno número de daemons e buscar trabalhar com eles para além daquilo que os grimórios descrevem sobre eles.
Outra coisa que sempre ressaltamos é que a noção monoteísta sobre os daemons criou uma imagem utilitária onde daemons podem ser usados e descartados de forma arbitrária.
O esforço de restaurar uma dignidade divina aos daemons é importantíssimo na superação de uma visão utilitarista que reduz os daemons a funções limitadas que você usa como um objeto e descarta depois do uso.
Essa abordagem utilitária presente nos textos medievais e modernos diz mais sobre o caráter e lugar social ocupado pelos autores e pelo público dessas obras do que sobre a natureza dos daemons.
Daemons não são coisas, e de um ponto de vista animista até as coisas tem vontade própria que independe de seus usuários.
Se um daemon não te responder, não insista. Não é não. Isso vale para daemons, deuses ou humanos.
Conclusão….?
Não temos conclusões fechadas, apenas ideias e elocrubações, com base em nossas práticas e em todo o material histórico disponível.
Essas foram as principais perguntas que chegam frequentemente até nós, mas sempre há outras, então sintam-se à vontade para nos perguntar em nossas redes sociais.
Cabe sempre ressaltar que magia não é ciência exata, então essas são as nossas formas de responder. Cada praticante pode ter uma visão diferente sobre cada questão aqui apresentada!
No mais, nos vemos por aí, e bons rituais!
