Os Demônios em Nosferatu: A Presença de Belial e Outros Daemons

A demonologia ocidental possui um vasto repertório de entidades, e entre elas, as figuras descritas no Ars Goetia desempenham um papel central em diversas interpretações artísticas e cinematográficas.

O filme Nosferatu de 1922, dirigido por F.W. Murnau, é uma das primeiras representações cinematográficas do vampirismo, enquanto os filmes Nosferatu de 1979, de Werner Herzog, e A Sombra do Vampiro de 2000, de E. Elias Merhige, ajudam a amalgamar esta presença. A aparição em Bob Esponja (2002) e a performance drag de Sasha Velour (2019) não podem passar despercebidas; já o filme Nosferatu de 2024, dirigido por Robert Eggers, reinterpreta e amplia estas referências.

Apesar de ter sido criado como uma adaptação não autorizada do Drácula de Bram Stoker, a verdade é que a Nosferatu ganhou vida (ou morte?) própria através dos tempos, se distanciando bastante, em termos de estética e narrativa, do Drácula original. E a relação da figura de Nosferatu com a demonologia, em especial sua relação com Belial e outros espíritos goéticos, merece uma análise mais aprofundada.

A Conexão Entre Nosferatu e Belial

Belial, descrito como um dos mais astutos e manipuladores daemons do Ars Goetia, aceitando sacrifícios de bom grado (alô Nosferatu de 2024), é frequentemente associado à revolução e à perversão da ordem divina. No contexto de Nosferatu, sua presença pode ser percebida na própria essência do vampiro, que simboliza a corrupção e a quebra da harmonia natural. No filme de 1922, há uma menção específica a Belial, sendo afirmado que “Nosferatu é filho de Belial”.

Esta afirmação nos leva a várias interpretações possíveis. A primeira é a de que Nosferatu é um demônio, que faz parte das 80 legiões de Belial.

A segunda é de que demônios realmente poderiam ter filhos (não seria a primeira vez, dado que alguns teriam copulado com humanos para gerar os Nefilim ou Gigantes, na Bíblia), e neste caso a ascendência seria direta.

A terceira é a de que todo monstro é uma personificação da perversão do sagrado, e dado que no Evangelho de Bartolomeu Belial é o pai do pecado (que foi instilado em Adão e Eva ao beberem água com o seu suor), todo vampiro e todo monstro seria um filho de Belial.

A quarta tem relação com a maldição de Caim, que instilado pelo ódio dos demônios (Belial sendo um dos mais importantes) matou Abel e se tornou o primeiro vampiro, sendo amaldiçoado a comer sangue e andar sempre no escuro.

A quinta é a de que Nosferatu seria um ser-humano que se tornou um mago sombrio, tendo como “patrono mágico” o demônio Belial, e após sua morte física teria se tornado um vampiro (esta sendo a interpretação mais viável com base no filme de 2024).

Livro O Golem - Gustav Meyrink
Livro O Golem – Gustav Meyrink

Aliás, é interessante ressaltar que a estética de Nosferatu foi criada com base na figura na contra-capa do livro “O Golem”, que fala de um monstro criado a partir de antigos rituais, que não tem alma, e vaga pelo mundo realizando as vontades nefastas de seu mestre, mas depois sai de controle; o que pode ser relacionado a Belial como aquele “que não possui mestre”.

Os Filhos das Sombras

Edgar Cayce (1877-1945) foi um paranormal estadunidense que psicografou diversos livros, entre eles um muito curioso chamado “Os Filhos da Luz”, onde relata, tendo como base informações supostamente obtidas em sessões espíritas e por meio de sua mediunidade, tudo o que teria acontecido na Atlântida antes de sua queda e imersão no Oceano.

Nessa narrativa, os “Filhos de Belial” seriam um grupo religioso da antiga Atlântida, composto por magos sombrios, oposto aos “Filhos da Lei Única” que seriam os guardiães da Ordem e dos Bons Costumes (te lembra alguma coisa contemporânea? risos). Seriam magos nocivos, responsáveis pela criação de monstros e aberrações que tinham a função de manter a escravidão na sociedade de então. Sendo eles totalmente materialistas, perverteram a religião e criaram diversos rituais e sacrifícios em nome de Belial. Sua perversão foi tão longe que “o único e poderoso Deus” viu como única forma possível de conter seu avanço afundar o continente inteiro, dando fim à Atlântida.

Fica fácil de perceber que esta narrativa é extremamente moralista e maniqueísta, buscando criar (pelo moralismo do espírito ou pelo preconceito do médium) uma divisão firme entre o bem e o mal, entre as vertentes consideradas “magia branca” e “magia negra”. Embora usando uma pauta extremamente importante como a da escravidão, a narrativa termina em um show de tradicionalismo e conservadorismo barato. Não por acaso, o governo do “país” Israel retomou a essa narrativa, e até mesmo aos manuscritos do Mar Morto (onde existe uma história similar), para se dizer “filho da luz” e justificar o genocídio da Palestina, que foi comparada aos “filhos das sombras”.

Manuscritos do Mar Morto
Manuscritos do Mar Morto

Representações Visuais e Simbólicas

Além da menção explícita no filme de 1922, o Conde Orlok, protagonista de Nosferatu, encarna características associadas a Belial e outros espíritos goéticos, tais como:

  • Aparência bestial: sua figura grotesca remete às descrições de entidades infernais que desafiam a estética humana.
  • A influência sobre a vontade alheia: Belial é reconhecido como um daemon que instiga a corrupção e manipula os fracos; da mesma forma, Nosferatu exerce um domínio psicológico e espiritual sobre suas vítimas.
  • A relação com a peste: O vampiro de Nosferatu não apenas suga o sangue de suas vítimas, mas também traz a peste, ecoando o papel demoníaco de disseminador do caos e da destruição.

Outros Daemons do Ars Goetia

Além de Belial, outros daemons do Ars Goetia estão relacionados ao universo simbólico do filme de 2024. Durante um exorcismo, o alquimista von Franz, interpretado por Willem Dafoe (que interpretou um ator interpretando Nosferatu no filme A Sombra do Vampiro de 2000; sim, muito metalinguístico) chama o nome de anjos e demônios.

Primeiramente ele chama os 3 arcanjos não-elementais: Zadkiel (júpiter), Chamuel (saturno) e Jophiel (vênus). Estes arcanjos são geralmente relegados ao esquecimento, já que apenas Gabriel (água, lua), Raphael (terra, mercúrio) e Michael (ar, sol) são citados na Bíblia, e Uriel (fogo, marte) nos livros apócrifos.

A própria lista de 7 arcanjos não é tão constante, sendo geralmente citados Camael, Sachiel, Anael e Cassiel além de Michael, Gabriel e Raphael (que por serem bíblicos, são mais constantes). De qualquer forma, a presença das energias dos planetas Júpiter, Saturno e Vênus no exorcismo tem relação simbólica com Nosferatu, que traz a morte (saturno) por meio do domínio sobre seus seguidores (júpiter) para que possa cometer atos libidinosos (vênus) com uma jovem que o atraiu em momento de êxtase.

Cena de exorcismo
Cena de exorcismo e presságios, no filme de 2024

Em seguida, von Franz chama três daemons para completar o exorcismo: Eligos (também chamado Alugor ou Abigor), Orobas e Asmoday. A presença de demônios e anjos em um mesmo ritual é comum nos grimórios antigos, permitindo a conexão dos planos “inferior” e “superior” ao nosso plano físico, e assim abrindo portais que permitem a passagem de seres não físicos e não nascidos de um lado para o outro.

Eligos, Alugor ou Abigor é um demônio associado à estratégia, o que conversa com o golpe imobiliário e contratual que o Nosferatu do filme realiza, sempre atuando de forma calculista e buscando enganar os seres viventes. Ele também é associado ao demônio da violência e da vingança Abaddon, que aparece em algumas narrativas para combater heróis valorosos e/ou tentar desviá-los do caminho da bondade.

Orobas pode ser associado ao demônio Ornias do Testamento de Salomão, que todo dia chupa o sangue de um trabalhador das obras do Templo, enfraquecendo-o porém sem matá-lo; além do aspecto de vampiro, vemos nessa passagem algo que Nosferatu literalmente faz no filme, em relação ao protagonista.

Asmoday teria sido o pai dos Nefilim, quando mandou suas legiões engravidarem humanas, o que conversa com o simbolismo do filme dado que Nosferatu parece ficar passeando pelo plano astral à procura de jovens puras buscando por êxtase sexual.

Sigilos e Símbolos Mágicos

O ritual usado para fortalecer e estabelecer conexão mental com Nosferatu usa um sigilo angelical, o Sigillum Dei, descrito nos 5 livros de mistério de Dee e Kelly e usado para comunicação com anjos da Magia Enoquiana através de Skrying. Porém em Nosferatu o símbolo é pervertido com outras palavras e outros alfabetos mágicos. É comum pegarem selos angelicais com estética agradável e transformarem em selos demoníacos em filmes de terror, e essa não seria a primeira vez que o Sigillum Dei é usado para isso, então vamos perdoar.

Sigilos e Símbolos mágicos no filme Nosferatu
O Sigillum Dei no filme Nosferatu (2024)

Já o sigilo de Conde Orlok é uma adaptação do emblema alquímico do VITRIOL, misturado ao selo das clavículas de salomão chamado “O Sétimo Pantáculo de Marte”, porém com uma estrela de 7 pontas ao invés de 8. Este selo serve para evocar demônios, e deve ser escrito em um pergaminho com sangue de morcego (alô Nosferatu!). Além dos demônios, este selo traz granizo e tempestades, que podem ser associadas diretamente à conturbada viagem de navio de Nosferatu (embora não seja necessário passar pelo mar em uma viagem da Transilvânia para a Alemanha, não sabemos por que ele deu aquela volta toda), e indiretamente às verdadeiras matilhas de ratos que invadem a cidade carregando a peste bubônica.

Sigilo Conde Orlok
Sétimo Pantáculo de Marte
Sétimo Pantáculo de Marte
Sigilo do Conde Orlok
Selo alquímico do Vitriol

Além disso, no filme de 1922 é apresentada uma mistura de símbolos alquímicos e planetários de Agrippa, junto com o primeiro pantáculo de Saturno (que tem um quadrado mágico 4×4, e serve para instilar terror sobre os espíritos) e o sexto pantáculo do sol (que apresenta um triângulo com círculo no meio, e pode ser usado para se tornar invisível ou passar despercebido). Instilar terror e passar despercebido são ambos bastante relacionáveis a Nosferatu.

Símbolos alquímicos no Nosferatu de 1922

Ou Seja?

A interseção entre demonologia e cinema não se dá apenas na superfície narrativa, mas também em um nível simbólico e iconográfico. Nosferatu pode ser entendido como filho de Belial tanto pela perspectiva de um mago sombrio tentando se tornar imortal e não podendo ver mais a luz, quanto pela noção de que todos os seres demoníacos são filhos de Belial.

Dessa forma, a representação do mal em Nosferatu não se limita ao vampirismo, mas se expande para uma concepção demonológica mais ampla, estabelecendo paralelos diretos e indiretos com os estudos ocultistas e da demonologia.