Daemons Loci: os demônios dos locais

Mesmo não estando limitados pelas regras da física clássica, alguns daemons têm relação com lugares específicos, habitando uma região ou podendo ser evocados de forma mais poderosa em um determinado local. 

A obra mais famosa que fala especificamente do trabalho com esses espíritos é o “Grimório para conjurar o espírito de um local”, um livro do Século XVIII que recomenda levar um porco até o lugar desejado e atrair o espírito para dentro do animal, fazendo-o falar e responder a perguntas. Mas existem diversas outras manifestações sobre espíritos dos lugares que valem a pena ser abordadas.

Genius Loci

Na magia greco-romana, Genius Loci (plural: Genii Locorum) era um termo latino que significa “espírito do lugar”. Referia-se a uma divindade ou espírito protetor associado a um local específico, como uma cidade, um rio, uma floresta ou até mesmo uma casa.

Hoje, o conceito é amplamente usado na arquitetura, no urbanismo e na paisagem para descrever o caráter único de um lugar, sua atmosfera e identidade. Projetos arquitetônicos e de design muitas vezes buscam respeitar e integrar o genius loci, harmonizando construções e intervenções com o ambiente ao redor.

Espíritos Locais

Na tradição religiosa e mágica da Roma Antiga, Lares, Larvas, Lemures e Manes são categorias de espíritos relacionados aos mortos e à proteção do lar. Cada um desempenhava um papel distinto no imaginário religioso romano:

Os Lares eram espíritos benevolentes e protetores do lar, das famílias e dos caminhos. Eram frequentemente cultuados nos lares familiares (lararium), pequenos altares domésticos onde os romanos faziam oferendas diárias para garantir proteção e prosperidade. Também existiam os Lares Compitales, que protegiam cruzamentos de ruas, e os Lares Praestites, guardiões de cidades.

Os Manes eram os espíritos dos antepassados falecidos que tinham recebido os ritos funerários adequados. Eles eram cultuados como entidades divinas, geralmente respeitadas e benignas. A festa chamada Parentalia, realizada em fevereiro, era dedicada a honrar os Manes da família com oferendas e rituais. Acreditava-se que viviam nos cemitérios junto às lápides das famílias às quais se relacionavam.

Os Lemures eram espíritos inquietos dos mortos que não haviam recebido sepultamento adequado ou que haviam morrido de forma violenta. Eram considerados perturbadores e potencialmente perigosos. Para apaziguá-los, os romanos realizavam o Lemuria, um festival em maio onde os chefes de família faziam rituais de purificação para afastar os espíritos indesejados. A palavra “Lêmure” teria origem em “Remo”, assassinado por Rômulo no mito da fundação de Roma, cuja alma teria ficado presa no Monte Palatino, se tornando o primeiro Lêmure.

As Larvas eram espíritos malignos e atormentados, muitas vezes confundidos com os Lemures. Eram vistos como espectros vingativos que assombravam os vivos. Diferente dos Lares, que protegiam o lar, as Larvas traziam medo e destruição, e precisavam ser exorcizadas ou afastadas com rituais. E diferente dos Lêmures, presos no local por um crime de homicídio, as Larvas poderiam estar presas por ganância, culpa, ou outros aspectos.

Daemons dos Países

No livro Les Farfadets, de Berbiguier, são citados daemons que seriam os embaixadores do inferno em alguns países europeus. Esta lista é erroneamente atribuída a Wierus por dePlancy, e conta com diferentes versões dependendo das obras que a citam.

Na lista de Berbiguier, Balphagor seria o embaixador da França; Mammon o da Inglaterra; Belial tomaria conta da Turquia; Rimmon da Rússia; Thamus seria encarregado pela Espanha; Hutgin pela Itália; e Martinet ficaria a cargo da Suíça.

Não são citadas as tarefas específicas que estes daemons realizam em seus respectivos países, mas de forma geral a evocação dos mesmos, por alguém que esteja nesses países, pode trazer mais respostas.

Daemons dos Continentes

Por fim, temos também alguns daemons que regem sobre continentes inteiros do planeta, auxiliando no contato com espíritos, daemons e outros seres mágicos destes locais. 

No Ars Goetia, é citado especificamente que Baal vem do Leste e que Paimon vem do Oeste, e considerando que o grimório foi escrito na Europa, pode-se imaginar que o Leste se trata da Ásia ou Oriente Médio, e o Oeste se trata da Península Ibérica. Também é citado que Cimeies rege os espíritos da África, mas sem nenhuma explicação sobre este dado.

Já no Grimorium Verum, é explicado que Astaroth rege as Américas, Lúcifer rege a Europa e a Ásia, e Belzebu rege a África. Novamente, não são dadas muitas explicações, mas imagina-se que isto se refira à sua posição no topo da hierarquia dos espíritos de cada região geográfica. 

Como Convocar o Espírito de um Local

Independente da visão que se tenha sobre a questão de “localização” dos espíritos, e sobre a sua conexão com uma área geográfica por um ou mais motivos, pode ser realizada uma prática relativamente simples para entrar em contato com os espíritos de um local.

Primeiramente, deve-se sentar ou deitar confortavelmente neste local. Em seguida, deve-se meditar sobre tudo o que está em volta, nos mínimos detalhes. Plantas, Solo, Concreto, Carros, Animais, Insetos, Pessoas, tudo o que estiver no local faz parte do Genius Loci, e é parte integrante da inteligência daquele lugar, compondo sua alma. Após se conectar com todos os elementos que estão no local, pode-se pedir que o espírito do local se apresente, mentalizando que todos os elementos estão tomando uma só forma personificada.

Após essa forma se apresentar, o que pode levar mais tempo ou menos tempo dependendo do nível de concentração, da dificuldade de conexão, da vontade do espírito se apresentar, entre outros fatores, pode-se perguntar o nome e pedir o selo do espírito, além de serem feitas perguntas e solicitados conselhos.