Daemons e Direções Cardeais

Quem trabalha com evocações demoníacas e angelicais, principalmente em um âmbito mais cerimonial, já deve ter se deparado com esta dúvida: como definir a direção cardeal de cada demônio ou anjo, para planejar o ritual de evocação? Se o triângulo (no caso dos demônios) ou a tábua (no caso dos anjos) deve estar voltada para a direção correspondente ao demônio ou anjo, então esta é uma pergunta importante, já que uma disposição incorreta dos elementos ritualísticos poderia colocar tudo a perder.

A resposta é bem simples, na verdade: depende do paradigma. Caso esteja praticando a Goécia Salomônica, se atente aos detalhes desta vertente. Caso esteja praticando a Goécia de Crowley, siga os detalhes dessa. Caso esteja praticando a Goécia do Dr. Rudd, a Goécia Luciferiana de Ford, ou a Goécia Satânica de Connoly, procure nestas vertentes as informações que precisa.

Mesmo assim, na maioria destes casos citados, as informações simplesmente não estão disponíveis. Na Goécia Salomônica apenas Baal, Paimon e Asmoday são descritos conforme sua direção cardeal e/ou imperador, e em outros sistemas a direção deve ser definida por meio dos elementos. Sendo assim, esta correlação não é tão direta, e é necessário estabelecer primeiramente o método pelo qual ela será feita, em seguida aplicando o método para chegar a uma lista de direções.

Imperadores das Direções Cardeais

Um primeiro passo importante é a definição de quais serão os imperadores cardeais, bem como os elementos relacionados, a cada uma das direções. Esta definição muda de grimório para grimório, sendo um ponto de atenção importante no trabalho cerimonial. A seguir são apresentadas algumas opções mencionadas em grimórios e outros livros.

Imperadores segundo diversos grimórios

Após a definição desta alta-hierarquia, podem ser definidos os elementos cardeais. Esta definição também não é única, e dependerá do método que foi utilizado para chegar até ela. No caso da Golden Dawn, por exemplo, temos a Terra no Norte, o Fogo no Sul, a Água no Oeste e o Ar no Leste. Mas em outras vertentes temos outras correlações, como por exemplo o Fogo no Leste onde nasce o Sol, a Água no Oeste onde ele se põe, o Ar e a Terra no Norte ou no Sul.

Elementos dos Daemons

Uma das opções para o posicionamento dos 72 Daemons e Anjos nas direções cardeais é a definição de seus elementos. Isto pode ser feito, por exemplo, por meio da distribuição dos mesmos entre os 12 signos do zodíaco, definindo-se então os elementos destes signos. Pode-se criar uma lista para Daemons e uma para Anjos, ou então criar apenas uma lista para Daemons ou Anjos, e considerar que a mesma lista vale para os Anjos ou Daemons correspondentes utilizando a ordem de 1 a 72.

Utilizando a ordem pela qual os nomes dos 72 anjos Shemhamphorash são formados a partir dos três versículos de Êxodo (capítulo 14, versículos 19 a 21) podemos distribuir os anjos de 5° em 5° pela roda zodiacal, chegando à seguinte correlação:

Tabela de Trithemius para associação entre anjos e signos

Neste caso, podemos considerar que o daemon correspondente também é regido pelo mesmo semi-decanato, de 1 (Vehuiah-Baal) até 72 (Mumiah-Andromalius).

Outra opção seria distribuir os Daemons nos decanatos, por exemplo como fez Crowley, de dia (1 até 36) e de noite (37 até 72), conforme segue:

Tabela de Crowley para associação entre daemons e signos

Neste caso poderíamos considerar que o anjo correspondente também é regido pelo mesmo decanato, de 1 (Baal-Vehuiah) até 36 (Stolas-Menadel) e de 37 (Phenex-Aniel) até 72 (Andromalius-Mumiah).

Outra opção foi apresentada por Skinner e Rankine em sua compilação da Goetia do Dr. Rudd. Os autores analisaram os 72 daemons do Ars Goetia em conjuntos de 6 daemons por signo, definindo algumas opções de planetas, em uma tentativa de homogeneizar a quantidade de Daemons relacionados a cada planeta. Segue uma das opções apresentadas:

Opção de associação entre daemons e signos por Skinner e Rankine

Nesta tabela, percebe-se que alguns aprimoramentos podem ser feitos, distribuindo melhor os daemons nas células com 3 ou 4 opções, para as células sem opções listadas. Porém, de qualquer forma, chegamos a um resultado próximo ao da correlação cabalística para os anjos (6 por signo), considerando sua correspondência com daemons. 

Nos três casos, os elementos ficariam prontamente definidos, uma vez que cada signo já está relacionado a um deles: Terra (Touro, Virgem, Capricórnio), Água (Câncer, Escorpião, Peixes), Fogo (Áries, Leão, Sagitário) ou Ar (Gêmeos, Libra, Aquário). Como as direções cardeais terão sido definidas anteriormente em termos de elemento e imperador cardeal, ficamos com uma correlação completa. Os planetas regentes, por sua vez, podem ser definidos em relação à hierarquia dos daemons e/ou à regência dos decanatos.

Estes três métodos são muito úteis, podem ser realizados de forma rápida, e na prática funcionam para diversas pessoas que os utilizam de forma ritualística. Não geram uma correlação única, e não podemos dizer que um é melhor ou pior que o outro, mais correto ou mais errado, de forma absoluta. Cada pessoa deve analisar e experimentar para saber o que é melhor para si.

Outras Abordagens

Após a consolidação do Ars Goetia, a ordem dos daemons é considerada imutável e mantida nos grimórios subsequentes. Mas, para fins de correlações cardeais ou zodiacais, será que a ordem dos daemons de 1 ao 72 é algo intrínseco da demonologia? Ou eles podem ter mudado de ordem ao longo dos séculos? Sabemos que a resposta é: SIM, além de algumas mudanças que podem ocorrer nos nomes e nas hierarquias, tanto a quantidade de daemons quanto seu número na ordem de apresentação mudam significativamente entre os grimórios.

Ordem e hierarquia de daemons em diversos grimórios

Sendo assim, parece fazer sentido também analisar os daemons de forma não previamente ordenada, encaixando-os um por um em signos, elementos ou direções cardeais. 

Para calibrar esta distribuição, já temos algumas pistas no próprio Ars Goetia: Baal (01) deve ficar no Leste, Paimon (09) deve ficar no Oeste, e Asmoday (32) deve ser regido por Amaymon (portanto ficando no Leste segundo a Goécia do Dr. Rudd). Mantendo a ordem tradicional dos Daemons do 1 ao 72, e usando algum dos 3 métodos apresentados anteriormente, vemos que não é possível cumprir as 3 restrições ao mesmo tempo. Teríamos que nos desprender da ordem de 1 até 72, ou nos desprender das indicações dadas sobre Baal, Paimon e Asmoday, para montar alguma correlação que cumpra tais critérios.

Ademais, no Book of Oberon (de 1577) temos uma lista de Daemons regidos por cada um dos 4 líderes cardeais; porém, os nomes de alguns daemons não são os mesmos do Ars Goetia (enquanto outros aparentam ser variações), e são citados apenas 48 daemons na listagem:

Atribuições cardeais no Book of Oberon

No Grand Grimoire do Século XIX, temos também uma lista de 18 dentre os 72 daemons do Ars Goetia, com sua regência de mestres e imperadores, porém sem serem indicadas as direções cardeais:

Hierarquia do Grand Grimoire

As hierarquias acima podem ser consideradas para que sejam analisados os nomes dos daemons que são similares ou iguais aos da Goécia, em busca de uma consolidação entre os diferentes grimórios.

Lembremos também da correlação indicada por Leo Holmes em seu livro Lemulgeton, onde os 72 corpos celestes do Mul-Apin sumério são pareados com os 72 daemons do Ars Goetia por meio de suas características e descrições. Analisando a localização de tais constelações no céu na época estimada para a criação da tabuleta, e considerando uma opção de Daemon mencionada no Lemulgeton para cada constelação, temos os seguintes posicionamentos nas casas zodiacais:

Possíveis regências zodiacais analisando-se o Lemulgeton

Além de todas estas opções apresentadas, os 36 decanatos podem ser analisados, tanto na vertente caldeia quanto na hindu e na hermetista, buscando-se encontrar correspondências de formas e poderes com os daemons, um por um.

Conclusão?

Vemos então que, mesmo permitindo que a ordem dos 72 daemons seja alterada, existem diversas formas de correlacionar cada um destes aos signos do zodíaco, elementos alquímicos, e direções cardeais. 

Sendo assim, voltamos à questão-chave: não podemos dizer que um método é melhor ou pior que o outro, mais correto ou mais errado, de forma absoluta. Cada pessoa deve analisar e experimentar para saber o que é melhor para si. 

Há quem prefira utilizar os imperadores cardeais de grimórios mais antigos (por exemplo o Libre des Esperitz dos anos 1500) ou ache mais adequada a distribuição de 2 anjos por decanato conforme a Cabala. Por outro lado, há quem prefira manter o que o Ars Goetia indica em termos de regência para Baal, Paimon e Asmoday, mesmo que estes fujam da regra geral. 

Há também quem prefira criar sua própria correlação pela interpretação das descrições dos daemons. Na dúvida, vale a pena tentar um contato prévio diretamente com o anjo e/ou o daemon, radiestesia, oráculos, ou outra forma de confirmação. Ou simplesmente não considerar as direções cardeais. 

Nesse caso, provavelmente você não poderá chamar a sua prática de “Goécia tradicional”.

Porém, nem na famigerada “Goécia tradicional” esta questão é unânime.

E independente de tudo isso, os daemons são seres com os quais é possível estabelecer comunicação! Sendo assim, cada praticante pode estabelecer estes canais e testar, ou tirar dúvidas diretamente com os seres evocados, se valendo também de oráculos para montar uma hierarquia infernal que faça sentido em seu paradigma.

Sucesso é a tua prova. Então, mãos à [grande] obra!

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