O autor Isaac Bonewits percebeu que muitas pessoas vinham se deixando levar pelas promessas de cultos que ofereciam “a verdade” quando na verdade queriam criar um séquito de membros adestrados e obedientes.
Uma coisa era comum entre os casos: os fiéis quase nunca percebiam que haviam caído em um culto perigoso, até ser tarde demais. Sendo assim, ele desenvolveu o “Advanced Bonewits’ Cult Danger Evaluation Frame” (ABCDEF), ou “Método Avançado para Avaliação do Perigo de Cultos”, auxiliando na análise.
O método se baseia em analisar 18 critérios e dar notas de 1 até 10 para cada um deles; assim, uma ordem ou grupo receberá uma nota total de 18 até 180, em uma escala de menos até mais “perigoso”. Aplica-se principalmente a grupos ou ordens mágicos ou de ocultismo, mas também pode se aplicar a outros âmbitos.
1. Controle Interno
Grau de poder político e social interno exercido pelo(s) líder(es) sobre os membros; falta de direitos claramente definidos para os membros dentro da organização. Somente o líder tem direitos e poderes, inclusive para obrigar ou impedir os membros de fazer coisas.
2. Controle Externo
Grau de influência política e social externa desejada ou obtida; ênfase em direcionar o comportamento político e social externo dos membros. Aqui, analisa-se como o controle interno se reflete em controle externo, indicando votos para eleições, incitando posicionamentos políticos, direcionando como as pessoas devem levar suas vidas, etc.
3. Sabedoria ou Conhecimento Alegado pelo(s) líder(es)
Grau de infalibilidade declarada ou implícita das decisões ou interpretações doutrinárias ou das escrituras. Somente o líder conhece os textos, tem acesso aos textos e/ou sabe corretamente interpretá-los. Número e grau de credenciais não verificadas ou inverificáveis alegadas, que podem ser iniciações em ordens, mentorias com autores famosos, etc.
4. Sabedoria ou Conhecimento Creditado ao(s) líder(es) pelos membros
Grau de confiança nas decisões ou interpretações doutrinárias ou das escrituras feitas pelo(s) líder(es); aqui analisa-se o comportamento dos membros quanto ao líder, endeusando-o, considerando-o como um guru (chamando de Mestre, etc). Grau de hostilidade dos membros a críticas internas ou externas ou a esforços de verificação, incluindo insinuações de que “você deve acreditar” ao invés de “ele deve comprovar”.
5. Dogma
Rigidez dos conceitos sobre a realidade ensinados; grau de inflexibilidade doutrinária ou “fundamentalismo”. Inclui a hostilidade ao relativismo e ao situacionismo, quando membros apresentam interpretações diferentes, ou outras possibilidades de aplicação dos conceitos, e são rechaçados.
6. Recrutamento
Ênfase colocada na atração de novos membros; grau de proselitismo; exigência de que todos os membros tragam outros novos. Esforço para atrair membros indicando que o ambiente interno do culto é incrível e perfeito.
7. Grupos de Fachada
Número de grupos subsidiários usando nomes diferentes daquele do grupo principal, especialmente quando as ligações são escondidas, não se sabe quais líderes participam de quais grupos, e quais as diferenças práticas entre os grupos. Os grupos de fachada geralmente são utilizados para chancelar ou auxiliar os grupos principais.
8. Riqueza
Quantidade de dinheiro ou propriedade desejada ou obtida pelo grupo; ênfase nas doações dos membros. Estilo de vida econômico do(s) líder(es) em comparação ao dos membros comuns, tendendo a ser muito superior em termos de classe social e/ou renda média.
9. Manipulação Sexual dos Membros pelo(s) Líder(es)
Grau de controle exercido sobre a sexualidade dos membros em termos de orientação sexual, comportamento ou escolha dos parceiros. No material original, é feita uma observação pelo autor ao analisar este ponto em relação a alguns grupos tântricos, que podem incluir práticas sexuais (porém, sempre consensuais e entre maiores de idade).
10. Favoritismo Sexual
Progresso ou tratamento preferencial dependente de atividade sexual com o(s) líder(es) e/ou relacionamentos românticos com pessoas de maior hierarquia. No original, é feita uma observação pelo autor ao analisar este ponto em relação a alguns grupos tântricos, conforme descrito acima.
11. Censura
Grau de controle sobre o acesso dos membros a opiniões externas sobre o grupo, suas doutrinas ou seu(s) líder(es). Desencorajamento a acreditar na mídia e no jornalismo. Pode incluir o estabelecimento de mídias de informação alternativas como blogs, telegram e whatsapp (entre outros) para difusão de notícias editadas deliberadamente de acordo com a visão do culto.
12. Isolamento
Grau de esforço para impedir os membros de se comunicarem com não-membros, incluindo família, amigos e namorados. Também pode ter relação com a manipulação dos relacionamentos românticos e/ou sexuais dos membros, se certificando que os casais sejam formados sempre entre membros.
13. Controle sobre os Dissidentes
Intensidade de esforços direcionados a prevenir ou recuperar desistentes, podendo incluir linchamento público, assédio e chantagem como meios de pressão sobre dissidentes. Mesmo após se desvincularem, podem ser feitos comentários negativos sobre ex-membros tanto dentro quanto fora do grupo.
14. Violência
Grau de aprovação da violência física e/ou psicológica, quando usada pelo ou para o grupo, suas doutrinas ou seu(s) líder(es). Diferença em relação ao grau de aprovação quanto à violência praticada por não membros, ou por outros grupos.
15. Paranoia
Grau de medo de inimigos reais ou imaginários; exagero quanto aos poderes percebidos dos oponentes; prevalência de teorias conspiratórias. Muitas vezes inclui a difusão de pânico moral, mencionando repetidamente que tais supostos inimigos desejam destruir os pilares de moralidade considerados.
16. Rigidez
Grau de desaprovação de piadas a respeito do grupo, suas doutrinas ou seu(s) líder(es). Incapacidade de lidar com irreverência ou coloquialidade durante os encontros, discussões, conversas e/ou práticas.
17. Submissão da Vontade
Grau de ênfase em que os membros não tenham de ser responsáveis por decisões pessoais; grau de perda de poder individual criado pelo grupo, suas doutrinas ou seu(s) líder(es). Pode incluir o estabelecimento de milícias digitais para assegurar a obediência, e linchamento virtual de opositores.
18. Hipocrisia
Grau de desaprovação de ações que o grupo oficialmente considera imorais ou antiéticas quando feitas pelo ou para o grupo, suas doutrinas ou seu(s) líder(es); disposição para violar os princípios declarados do grupo para ganhos políticos, psicológicos, sociais, econômicos, militares ou de outro tipo.
Escala de Perigo
Embora não seja um método propriamente quantitativo, dada a subjetividade de muitos dos critérios analisados, o método ABCDEF pode auxiliar aos praticantes na análise da periculosidade de grupos de magia, antes de entrarem nos mesmos. Veja a descrição do método completo em https://www.neopagan.net/ABCDEF_Portuguese.html .
Se o resultado total da análise estiver entre 18 e 50, pode-se considerar que se trata de um grupo não perigoso (obviamente, ficando sempre com um pé atrás, e observando atentamente os critérios que tiveram notas maiores do que 1). Entre 50 e 100, há uma certa periculosidade envolvida. Entre 100 e 150, é um grupo perigoso, convém tomar cuidado. Entre 150 e 180, é melhor sair correndo, porque certamente é uma seita.
Independente deste método, convém NUNCA idolatrar pessoas, seja em qual âmbito for. O foco deve ser dado sempre ao conteúdo, aos conhecimentos passados, e às opiniões que se mostrarem válidas e interessantes; mas nunca a seguir 100% do que a pessoa diz, somente por ser quem é, ou pelas credenciais que tem.
Chega de gurus, está mais do que na hora de HORIZONTALIZAR o ensino e a prática de magia, seja de qual vertente for.
